setembro 30, 2010

Cinco arrobas de amor


Diante deste lago, mergulho em mim
como se de ti
entornasse
e se o percurso que a água toma é inverso ao teu
então eu seco

Por vezes existem ondas no céu
que afogam gaivotas
assim me despenho e me fundo
no chão que me estendes,
na sombra que atravessas


Demasia-me a liberdade do dia
no vazio de ti
a espessura do tempo sufoca-me
eu não grito
mato-me nas palavras mudas


E se do mundo eu te inventasse
carregava-te na barriga e tu carregavas-me a mim
cada vez mais pequenos
até o mundo se reduzir
a coisa menor que nós


Será contudo sonho, razão
loucura que avisa e vem
um esforço que me aninha
na prepotência de te ter
em cinco arrobas de amor


Vera Carvalho

setembro 06, 2010

Vozes anoitecidas


Tem dias que as folhas me falam de ti
brancas, frias, sussurram-me
como o vento da noite que nos adormece
mas eu preferi-as vermelhas, quentes

vozes anoitecidas, empurradas pelo ontem
como se ainda fosse cedo
emagrecem-me de ti
                             tal a distância


ainda assim ouço-as
na esperança que se façam gestos, veias
                                                     carne
e me olhem sepultadas no silêncio
mas vivas no tempo



Vera Carvalho