setembro 02, 2008

Diz-me...


                                                                                            foto de Paulo Madeira

Diz-me…
como da chuva que se cola ao calor da pele
e adivinha na noite a frescura da alvorada

Diz-me…
no bulício do ar que se forma em nós
enquanto a lua guarda segredo


Diz-me com lânguidos sussurros
que a noite me espera
que o mar atraca nos suspiros largados na areia
e tu és água

e somos infusão

girando no gorgolejo das ondas

Diz-me
se é este vento que funde em gotas de brisa
o teu cheiro
e me solta este vício lúbrico em maré vermelha

Diz-me
que a noite me espera…

Vera Carvalho

agosto 08, 2008

Nas Águas do Verso 100 Autores 100 Poemas


Um agradecimento em especial ao João Filipe Ferreira e ao Pedro Lopes pela oportunidade concedida para fazer parte deste fantástico rol de escritores.

A quem faz pão ou poema
só se muda o jeito à mão
e não o tema.

Atingira um silêncio tão de espanto
que era todo universo à sua volta
um seduzido canto.

E posto que viver me é excelente
cada vez gosto mais de menos gente.

Não sei quem manda na vida
mas a quem for eu me entrego
e o que queira me decida.

Pé firme leve dança
que o saber seja adulto
mas o brincar de criança.


in Uns Poemas de Agostinho, de Agostinho da Silva; edições Ulmeiro, 2ª ed. Maio de 1990.

junho 26, 2008

A razão não foge ao coração


                                                                                               foto de Ruben Andrade
Hoje eu sei
o porquê do prazer de um raio de sol que
bate no rosto depois do aperto incontido da chuva
Sei das palavras loucas que o vento leva
para lá
das orelhas moucas
Sei o porquê
do primor das cores espalhadas nos seres e o facto
de tu já o saberes
Hoje eu sinto
a aspereza da areia que foge das mãos pela
maciez da água e percebo
porque entre terra e mar
não sobrevive mágoa
Sinto o calor arder-me na pele e o suor lamber-me a ânsia
e percebo
porque abaixo de beijos e lágrimas
há sempre um chão em redor
Hoje eu não sei
olhar não sei tocar
e não sei de tantas coisas
Mas sei o porquê do que sinto
e sei que a razão
não foge ao coração

Vera Carvalho
(para a razão do meu coração)

maio 26, 2008

Convite para o lançamento da Antologia Amantedasleituras 2008


A edium tem o prazer de anunciar a edição da Antologia Poética 2008, Amante das Leituras, para o próximo dia 31 de Maio.Este ano, a Antologia contará com as participações dos seguintes autores:Alexandra Oliveira, Ana Maria Costa, Carlos Alberto Roldán (Argentina), Carlos Luanda, Denilson Neves (Brasil), Geraldes de Carvalho, Jorge Vicente, José-Augusto de Carvalho, José Dias Egipto, José Gil, Manuel C. Amor, Maria João Oliveira, Maria Rita Romão, Mónica Correia, Paulo Themudo, Samuel Gomes, Túlio Henrique Pereira (Brasil) e Vera Carvalho.

abril 17, 2008

Con(m )tacto


                                                                                                           foto de DDiArte

É da pele,
a negrura da lama que encharca a boca
quando o silêncio cai.

É da pele,
a rigidez das pedras que edificam os punhos
em balastro à guerra.

A aspereza da terra que seca as lágrimas
outrora mergulhadas na corrente do rio,

é da pele,

o vermelho estendido no chão,
manto pérfido com suores da razão.

É da pele,
o cheiro promíscuo de verdades,
em deleite, traídas.

É da pele,
as fendas que acovilham os corpos despidos.

A decrepidez flácida de um universo rendido,

é da pele.

Vera Carvalho

março 31, 2008

Espelho da alma



Deixa-me olhar-te nos olhos,
correr no verde que anuncia a primavera
e desvendar os mistérios dessa janela.
Abre esse mundo que a íris silencia
com astúcia e sensualidade
e dá-me a trincar o fruto
que me rouba à realidade.

Deixa-me chegar-te a mim,
espreitar-te pelos poros
a dimensão da alma
e então, afundar-me nela
vaiada pelo raciocínio e,
aclamada pelo descortino
julga-me,
rasga-me em pedaços
com que depois cortinas a janela.

Cada vez que o vento passe por ela
deixa-me segredar-te ao ouvido
quantas lágrimas compõem a tua ausência,
quais as palavras que os lábios encerram
e como a falta de amor provoca demência.
Deixa-me percorrer-te a olhar-te nos olhos
sem que a claridade te cegue a vontade.

Vera Carvalho

Em agradecimento ao Xavier Zarco pela referência em Eu, X.Z.

março 11, 2008

Sede


Foto de Sara Sá

A língua atrai e retrai-se
aos conjuros da sede.

Ah!!! Pecado foi beber-te
e não caberes dentro de mim...

Vera Carvalho

fevereiro 28, 2008

Eternidade


foto de autor desconhecido
Ah, se eu pudesse
Espraiar as minhas memórias com a leveza da brisa
E render-me ao sorriso que elas me trazem
Resumia os dias àquilo que te caracteriza.

Entregava-me ao sol e ao mar
Baloiçada pelos segredos que as ondas guardam
E o rubor que emergia das minhas faces
Denunciavam-te à linha que os olhos talham.

Ah, se eu pudesse
Navegar junto a ti numa canoa
Flutuar desprendida dos pés que me agarram à vida
Morrer seria até, coisa boa.

Despia-me da fisionomia
Enredada aos trapos da saudade
E aconchegava-me ao vermelho da carne
Até à eternidade.


Vera Carvalho

fevereiro 12, 2008

Insânia


foto de Keitology

Talvez eu não possa amar-te

talvez a insanidade dos meus sentidos revogue
a serenidade de um poema ladeado de lírios e organzas
e me acerba esta vontade de te rasgar a pele
e colar-me a ti

talvez a sede de mulher sugue
as palavras doces da tua boca
e me atice esta vontade de te trincar os lábios
e beber-te o sangue

talvez o despropósito do meu ser arranque
as raízes dos teus braços
e me enlouqueça esta vontade de te roubar ao mundo
e fundir-te em mim

talvez eu não possa amar-te
com a lógica da razão

amarra-me então o corpo
mas liberta-me deste coração

para que eu não possa
amar-te

Vera Carvalho

janeiro 21, 2008

Vou aonde vão as folhas


foto de Alain Marc
O vento larga a candura de um sopro
e as tardes vadias varrem-se
nas conversas desgastadas
pela sombra do sol.

Oiço as folhas ao meu redor segredarem
a sua partida e acalma-me saber
que seguirei o mesmo caminho.

As folhas vão onde vai a poeira
e eu esmaguei-te vezes sem conta.

Sei que a minha garganta sentirá o vão dos rios secos,
os olhos a acidez das chuvas,
os pés os espinhos das rosas
mas o meu desígnio voa com o vento.

Inútil é arrancar as penas e
espalhá-las como um pranto
à espera que a chuva lave as
vísceras do arrependimento.

Vera Carvalho

janeiro 16, 2008

Blogue das Artes


O Blogue das Artes fundado por Tiago Nené e Duarte Temtem é um ponto de encontro entre artes e artistas.
Entre a minha poesia que agora fará parte desse encontro, há muitos bons motivos para visitarem o Blogue das Artes .





Agradeço ao João Filipe Ferreira - Last Good Bad Idea - esta distinção.
Obrigada meu querido, fico feliz por saber disso :D.

janeiro 08, 2008

Apunhalo meu coração



foto de Janosch Simon

Sinto a geometria da lâmina
percorrer-me as fronteiras.
Esticam-se os ossos,
esmaga-se a carne e sufoca-se a voz.
Não queria empunhar facas, antes
buquês de rosas.
Mas já não se colhem flores,
os ovários não produzem cores, perfumes,
sorrisos, toques
e as palavras estéreis que pairavam no ar,
não as consigo inventar.
Caem, agora, do céu,
frios
no silêncio que rui
em gumes,
morfemas cuspidos que desfiam
sonhos e semeiam lágrimas.
Apunha-lo, antes, meu coração
e deixo o sangue afogar este terreno árido
para que possam brotar de novo
as rosas.

Vera Carvalho