dezembro 23, 2007

Que nasça um fillho de Deus todos os dias


foto de Djelsa
Hoje caminho pelas ruas
Iluminada pelos sorrisos fagueiros
que me dão sem exigir nada em troca.

Juntam-se-lhe as cores do refrigerante
metalicamente estampadas nos sacos pêndulos
que se atropelam e que elegantemente
espelham nas montras das lojas.

O olhar brilha-me,
as retinas reflectem as emanações de luzes,
mas a emoção não cresce,
continua presa nas árvores coníferas que propositadamente
cristalizam em magia cósmica.

Num ápice de quimera, chovem as memórias
que me quebram os joelhos e me prostram numa sala
aquecida pelas gargalhadas e ampliada pelos abraços.
O cheiro doce das fatias douradas e
o som aveludado dos coros infantis
incendeiam-me o corpo e alforriam-me a alma.

Sou, de novo, menina com o coração a bater palmas
ao prenúncio das doze badaladas.
Quero apenas fechar os olhos, pensar nas minhas boas acções e
que alguém me traga os desejos escondidos num saco…
Quero a realidade de novo enfeitada com estrelas e laços,
acreditar que tudo se perdoa com o sopro de um beijo
e que nasça um filho de Deus todos os dias.

Vera Carvalho
in Antologia de Natal Edium 2007 (http://ediumeditores.blogspot.com/)

dezembro 10, 2007

Espectro de consciência


foto de Heliz

Pega-me ao de leve no corpo entardecido do sol,
despe-me do laranja e do vermelho
e entorna-te sobre mim,
monocromático.
Sorve, voraz,
os alaridos da minha alma
e guarda-os em teus lábios
em penitência perene.
Apaga esse padrão repetido que me veste de dia
e desenha-me de novo, com traços convexos,
conexos ao desalinho
do tempo.
Figura-me nua
de sentimentos,
subtil
de entendimentos,
e preenche-me com a alvura inocente das gaivotas.
Sopra-me ao vento
e ganharei asas circundantes na altivez do céu,
espectro índigo que desce na bruma branca
das manhãs de Inverno.

Vera Carvalho