março 29, 2007

Sentes como te sinto num poema?


foto de Carla Salgueiro


Percorre-me o suor do teu corpo
nas mãos ansiosas d’escrita
e esborratam esta folha limpa
em palavras d’amor
que escorrem da minha boca.
Como te sinto os beijos!
Desejos
provocam-me as palavras,
obscenas cenas
se espalham num grito
que me arfa o peito.
Desenhadas em movimentos rangidos
por vontade voraz de te sentir os gemidos,
a tinta da cor do que sinto
pinga das pétalas que permanecem
esquecidas nas minhas mãos
que agora pinto.

-----V.C.-----

março 26, 2007

No chão cavo o meu suspiro


foto de Carla Salgueiro


Cerro os olhos à procura de um vazio,
de uma cova onde esteja só, onde os sentidos são proibidos.

Sou surda à voz do coração, severa ao meu lamento
mas inabalável à tentação.

Ah, mas quando a razão vence o coração?!

Mesmo de olhos cerrados, de coração aprisionado
desfruto-te o cheiro,
sinto-te a rigidez dos dedos,
procuro-te o sussurro,
e caio das tuas mãos
como lençol de seda,

no chão,

cavo o meu suspiro, maldito sentido!

Porque és presença quando tudo havia perdido?!

-----V.C.-----

março 16, 2007

Perfeita Sintonia




foto de Maria Flores


Nas noites em que sou corpo perdido
abrigo-me em telhado de sombras
que teimam fortalecer a minha dor
por entre o bulício entranham-se raios de lua
que revelam a minha cor - nua

aos olhos, as estrelas são culpadas
aos dedos, os devaneios são pedidos
ao coração, o poema rima em perfeita sintonia
entre os acordes da noite e a rima dos versos
ardor, amor, hoje soam-me a - perversos

sonhando choro lágrimas em tons de azul
que inventam um céu
meu - onde a noite é rabisco de vogais.

-----V.C.-----

março 12, 2007

Memória em mim


foto de autor desconhecido

Ao lembrares-te de mim

que eu seja gaivota branca rasgando o céu celeste
e planando sobre o embalar das ondas

que eu seja céu pintado de tons de sol e de paixão
abraçando o fim do dia com uma leve saudade

que eu seja cheiro doce a jasmim
percorrendo os lugares onde ainda sou lembrança

que eu seja criança pintalgada de alegria
rasgando o verde dos campos e dançando com as papoilas

ao lembrares-te de mim, lança pétalas ao vento
e de braços abertos espera que beijem teu rosto

que a memória seja a última a morrer
em mim


-----V.C.-----

março 07, 2007

Salpico de brisa


foto de Luís Pinto

Nos dias em que acompanho a chuva
sigo as suas gotas revestida de uma limpidez
que transparece o escuro que em mim guardo

como pêndulo expulso da mão materna
sinto a dor da queda quebrar-me ao meio
e derramo lágrimas que se juntam ao mar

salgadas memórias que ancoram n’areia

ondulo para lá da praia
à espera que o vento me revolte e de volta me una
em salpico de brisa que te bate no rosto.

-----V.C.-----

março 02, 2007

Dueto - Querer mais que Vontade -



É olhando a linha que nos separa
para lá do mar e da cor
que a vontade sedenta morde o teu vulto
nas saudades sugo o sémen quente
sou víbora airada, alucinada pelo teu odor
nas árvores largo a pele
trespasso, invado e domino-te os contornos
desço movimentos às folhas do sexo
do teu colo avançam os dedos fingindo delicadeza
flores, túlipas vermelhas doam o orvalho ao vento
lentos e atilados acautelam-me os sentidos
perdido, algures, entro no ventre das dunas
serás presa dócil, submissa desfrutando da iguaria
reboliças línguas viajam areias
acorrentado o teu corpo oscila
entre as ondas e o calor
em júbilo do ardor da mordida acérrima
bocados de gritos vêm.
Num sopro gemido contestas a tua oportunidade
o tempo ergue-te nos braços.
Falhada, proibida.
Perdido o paraíso chora no cume do céu.
Sou víbora airada, sem vénia, sem permissão, sem restrição.
Quero amar!

Vera Carvalho e Ana Mª Costa( http://ana-maria-costa.blogspot.com/ )