janeiro 31, 2007

Querer mais que Vontade
























foto de Victor Melo
É olhando a linha que nos separa
que a vontade sedenta morde o teu vulto
sou víbora airada, alucinada pelo teu odor
trespasso, invado e domino-te os contornos
do teu colo avançam os dedos fingindo delicadeza
lentos e atilados acautelam-me os sentidos
serás presa dócil, submissa desfrutando da iguaria
acorrentado o teu corpo oscila
em júbilo do ardor da mordida acérrima
num sopro gemido contestas a tua oportunidade
falhada, proibida.
Sou víbora airada, sem vénia, sem permissão, sem restrição.
-----V.C.-----

janeiro 26, 2007

Não quero asas para voar!

















Uma noite sonhei
que poderia ganhar asas e voar,
subir para lá das nuvens
e romper o céu de tanta volta dar!

Sôfrega de vontade e despida de embaraço
Deixei-me levar, subi, subi, subi…
…até um circulo vago, de uma vastidão incomum,
Sentia frio, deixei-me pousar.
Não conseguia caminhar,o solo de algodão movia-se lentamente e arrastava a leveza do meu corpo.
O vazio era perfeito, sereno, puro.
A atmosfera inerte assombrava-me o querer!
Aos poucos ia rasgando a névoa, mas as fendas só mostravam o que ficava para trás!
Um círculo despejado de solidão!
O silêncio e o frio secaram a vontade e aprisionaram a liberdade.
"De que valeu subir tão alto se tudo é deserto e triste?"
Rompi o solo de algodão e deixei-me cair rodopiando na desilusão.
"Não quero o céu, as nuvens, as asas!
Quero acordar, sentir o sol da manhã que me aquece através da janela,
preguiçosamente levantar e sentir o duro chão,
arrastar o corpo pela casa e enfrentar mais um dia,
mesmo que não seja um sonho."

-----V.C.-----

janeiro 18, 2007

Bagageiro da paixão
















De que fado vieste tu?
Serias folha de árvore caída no chão?
Gota de água em terreno árido?
Ou sopro de vento numa tempestade?

És desvario, alucinação, angústia da alma.
És bagageiro da paixão, inquietude da calma.

Trazes os olhos da perdição, a boca do pecado,
envolves em tentação o meu corpo acorbadado.

Ilusionista da vontade, acorrentas-me o sentido,
crias um ardor desmedido num sonho fingido.

Abominada chegada, encantada presença,
a tua partida apressada é minha sentença.

-----V.C.-----

janeiro 08, 2007

Abraça-me




Hoje preciso esquecer o mundo lá fora
Deixar que o tempo passe sem saber como
Juntar todos os meus pensamentos num só e sentir-te o perfume
Abraça-me e tira-me deste mundo
Leva-me para um lugar vazio e deixemo-nos ficar
Só preciso dos teus lábios para me saciar
Dos teus braços para me adormecer
Dos teus olhos para escrever a nossa história
Por ali seremos vida, verso ou canção
Abraça-me e leva-me para um lugar vazio…


-----V.C.-----

janeiro 02, 2007

Saudade


Penso no mar e nos segredos enterrados na areia.
Peço às ondas para os levarem para bem fundo onde ninguém os encontre, mas onde o seu brado me chame.
Relembro o pôr-do-sol, a brisa a invadir-me os sentidos e caminho na areia marcada pelas memórias.
Desejo esvoaçar como as gaivotas, dar voltas e voltas e pairar sobre o meu mar.
Sinto uma dor que me aperta e me esmaga…
É a dor do tempo que passa e não volta atrás,
É a dor da saudade.


-----V.C.-----