dezembro 23, 2007

Que nasça um fillho de Deus todos os dias


foto de Djelsa
Hoje caminho pelas ruas
Iluminada pelos sorrisos fagueiros
que me dão sem exigir nada em troca.

Juntam-se-lhe as cores do refrigerante
metalicamente estampadas nos sacos pêndulos
que se atropelam e que elegantemente
espelham nas montras das lojas.

O olhar brilha-me,
as retinas reflectem as emanações de luzes,
mas a emoção não cresce,
continua presa nas árvores coníferas que propositadamente
cristalizam em magia cósmica.

Num ápice de quimera, chovem as memórias
que me quebram os joelhos e me prostram numa sala
aquecida pelas gargalhadas e ampliada pelos abraços.
O cheiro doce das fatias douradas e
o som aveludado dos coros infantis
incendeiam-me o corpo e alforriam-me a alma.

Sou, de novo, menina com o coração a bater palmas
ao prenúncio das doze badaladas.
Quero apenas fechar os olhos, pensar nas minhas boas acções e
que alguém me traga os desejos escondidos num saco…
Quero a realidade de novo enfeitada com estrelas e laços,
acreditar que tudo se perdoa com o sopro de um beijo
e que nasça um filho de Deus todos os dias.

Vera Carvalho
in Antologia de Natal Edium 2007 (http://ediumeditores.blogspot.com/)

dezembro 10, 2007

Espectro de consciência


foto de Heliz

Pega-me ao de leve no corpo entardecido do sol,
despe-me do laranja e do vermelho
e entorna-te sobre mim,
monocromático.
Sorve, voraz,
os alaridos da minha alma
e guarda-os em teus lábios
em penitência perene.
Apaga esse padrão repetido que me veste de dia
e desenha-me de novo, com traços convexos,
conexos ao desalinho
do tempo.
Figura-me nua
de sentimentos,
subtil
de entendimentos,
e preenche-me com a alvura inocente das gaivotas.
Sopra-me ao vento
e ganharei asas circundantes na altivez do céu,
espectro índigo que desce na bruma branca
das manhãs de Inverno.

Vera Carvalho

novembro 26, 2007

A ferro e fogo


Foto de Keitology

A distância dos nossos corpos
assedia a ânsia…

Freme veemente em círculo ardente
e multiplica-se num desbravado caminho
de palavras que retrocedo
em alongado
gemido de carência.

Marco as minhas mínguas
a ferro
e todo o teu ser arde-me na pele
gravado em substância.
Aferras-te
e em mim
és perfeito na imensidão de homem.

Percorres-me em segredo,
lapidando as curvas
que à luz se entregam e
projectas-te em sol e fogo.
Não te enxergo a forma
mas sinto-te em fusão
correr-me no sangue.

À contrariedade do tempo que emerge,
gorgolo em devaneio
o teu nome decifrado.

Vera Carvalho

novembro 22, 2007

1.º Aniversário



Hoje, o "PÉTALAS MINHAS" comemora o seu 1.º aniversário!
Ao longo deste ano desfolhei-me, pouco a pouco, a todos os visitantes leitores e agradeço, de mãos ao peito, o carinho e a atenção com que todos me pegaram, me sopraram e ainda me guardam. Presenteio-vos a todos com o aroma das rosas vermelhas.

Orvalha a manhã na verdura das folhas
e as pétalas que se abrem em rubro
unem-se em poema veludoso.
São jardins as mãos de poeta.


Vera Carvalho

novembro 19, 2007

ENCRUZILHADA



Desafiada por ContorNUS ligo-me à ENCRUZILHADA.
Com o título dos últimos 10 posts compor um post em prosa/ conto ou poesia, não necessariamente na mesma ordem de publicação e aleatoriamente (se assim o entenderem), usando verbos, preposições, etc para dar elo de sentido ao todo.

Nasci numa alma
mulher
despida na longitude
do sol

aquecem-me
as lágrimas que me secam
em dança cadenciada
de pássaro sonhador
que chora a ausência
de um sonho alentejano

na partida
junto as lágrimas
ao oceano
em que afundo
o alter ego

Vera Carvalho

Adorei este desafio e por isso lanço-o ainda fervente de minhas mãos...
Palavras Soltas
Poesia de Paulo Afonso
O Canto da Rosa
Recanto da Alma
Olhar indiscreto
Nimbypolis

Um abraço a todos.

novembro 06, 2007

Alter ego



foto de autor desconhecido

Meço-te em filigranas que teço
a cada palavra que sopras.
A suavidade com que caem sobre mim
confundem-me fada,
matizada pelas cores que centelham do teu sorriso.
Traço-te em contornos que rompem
em pinceladas subtis
de um azul céu e fico-me por ali,
até que escureça a cor
e cintile o brilho dos teus olhos.
Rio seguindo os teus lábios
e mergulho nas ondas
desse mar de água doce
que guarda tesouros no coração.
São teclas de piano as guardiãs...
Pena eu não saber tocar-lhes!
Deito-me sobre o silêncio que poisa na areia
e espero que as ondas me sussurrem a música.
Deixo-me embalar
e guardo sob as pálpebras
a tua imagem de noite estrelada
que se deita sobre o mar.

-----V.C.-----

outubro 22, 2007

"meme" - Como eu escrevo...


Quando o dia se mostra cansado e o manto de luz que une os círculos polares aconchega a minha alma, dispo-me do ser que me escuda.
Caminho descalça sobre a vestimenta que larguei, sinto-lhe a textura e inspiro-lhe as fragrâncias.
São os sentidos que me movem, são os olhares que perdi de vista e aqueles que vivamente sigo, são os sabores amargos ou doces dos lábios que provei, são os toques suaves, intensos, fugidios, constantes…são os ruídos que me seguem e os que procuro.
Tanta vida que quero e não quero que me verte da pele e escorre até à ponta dos dedos ávidos do prazer da alma.
É assim que eu escrevo,
escrava à minha satisfação interior, roubo a vida lá de fora.


Em continuidade ao "meme" oferecido pelas mãos de Rita Costa - Natureza Poética. Um abraço para a mulher que tem alma poética:).

Vera Carvalho

outubro 09, 2007

As lágrimas que me secam


foto de Jana Vieras

Correm lágrimas desalinhadas
em meu rosto
quando, à minha direita,
vejo o vazio rebatido de tenras ervas.
Eu continuo lá
absorvida pelo rio
mas largada na margem
_[amiserada pela tua ausência].

Intimida-se o vento
que ao passar por mim se esconde
no mesófilo da folha.
Murmuram os estomas
prantos que choram em uníssono
e cada gota
pesa sobre o sol .

Apaga-se o fervor
dos beijos em meus lábios,
descora-se a alma,
tranca-se a vida.

Escorre a saudade em lama
neste rio,
manchando de negro as bordas do corpo
que racham
em estilhaços
ao passar do tempo.

Sangram memórias
no reflexo da imagem
que escondes do céu
e entorno-as novamente sobre ti
_[na esperança que algo de mim sobreviva].

-----V.C.-----

setembro 24, 2007

Ausência



sinto-te
na distância palpável das ondas
na paisagem sonâmbula dos dias
nos vazios de perfume que deixaste

e da essência dos rastos amanhecidos
só o gesto líquido da ausência

_________________________ Jorge Casimiro

tacteio as tuas palavras em piano
e a nossa distância é apenas a de duas notas

sinto-te
na proximidade insinuante da brisa
na melodia do voo rasgado das gaivotas
nos restos de ruínas esquecidas n’areia

_________________________ Vera Carvalho



- No próximo dia 27 de Setembro, pelas 18h30, a apresentação do livro, Murmúrios Ventos (Pássaro de Fogo), do poeta Jorge Casimiro,na Casa Fernando Pessoa - Lisboa. Apresentação de Francisco José Viegas. Leitura de poemas por Ana Lúcia Palminha, Tânia Leonardo, António Jorge Marques, Jorge Castro e Pedro Laranjeira. Música por João Lucas (piano) e António Jorge Marques (flauta transversal).

Não deixem de ler http://blogdalista.blogspot.com/2007/09/devia-ser-natal.html

setembro 13, 2007

Pássaro Sonhador


foto de João Parassu

"A esperança tem penas e empoleira-se na alma a cantar a melodia, mas sem dizer as palavras, e o canto nunca pára..."

_____________________Jorge Carvalho

Rompo auroras ainda ao anoitecer
e rasgo-lhes as tiras de cetim.
Envolvo-as suaves em minhas mãos,
empurro o azul do firmamento
e deixo que voem,
___que voem livres
até que amanheçam em ti.

Vera Carvalho

setembro 03, 2007

Longitude


foto de André Navega

Olho-te a face rasgada
das histórias já tantas vezes contadas.
Sigo, em lágrimas que recolho,
a beleza, a doçura que alcanças
quando procuras transpor o horizonte.
Não te deixo ir.
Pego-te nas mãos ásperas, outrora fortes
mas que ainda acolhem como berço as insónias e
pergunto-te se é frio, inquietude, medo…
Não…
Apenas o corpo que é fraco para alma tão grandiosa !
Também o meu coração treme
porque os teus olhos continuam lá,
no horizonte.
Quem dera não teres descoberto o caminho,
ainda…
Deito-me no teu regaço,
talvez um abraço seja o elo mais forte
desta corrente.

-----V.C.-----

agosto 10, 2007

Dança


Foto de ABrito
Entre o vazio da sala e eu
permanece fixa a tua presença,
obstinada,
alicia como quem despe com um olhar
os meus sentidos,
arrepia a minha vontade
como a lâmina de uma espada
e faz tremular a memória
ainda casta.

Inspiro o teu perfume que as paredes libertam
e a minha face ergue-se
à procura do teu beijo.
___Não te alcanço.
O corpo vem por arrasto.
___Não te alcanço!
Os braços estendem-se para abraçar as
partículas que ainda restam.
___Não te toco!
Giro, volteio, revoluteio.
___Não te encontro…
O delírio atira-me ao chão
mas a vontade ergue-me a face
à procura do teu beijo.
-----V.C.-----

agosto 01, 2007

Sonho Alentejano


foto de autor desconhecido

Lembras-me
o cicio de vento que percorre
o trigal dourado.

Brando,

acompanhas o trinado fluido do rouxinol
que anuncia o entardecer
e convidas-me a dançar, por entre
o azul que se dispersa
e a luz de sol poente.

Numa singeleza descalça,
assemelho-me
à loira espiga,
ondulando ao vento
danço
envolvida na expressão de sentimentos
das palavras radiadas.

Contornas-me um sorriso no rosto e
espalhas num beijo
uma ternura de mel.
Doce embalar que me recolhe em sonho.
(ao poeta caraíba mais alentejano que conheço - Carlos Almeida - com ternura:))
-----V.C-----

julho 17, 2007

vera transit lux mundi

talvez tirésias na sua ampla sabedoria
soubesse da beleza que se esconde
na flora olímpica à guarda dos deuses,
cujo único entretenimento
é a corrupção mútua com a criação
de triângulos amorosos
na vingança terrena e efémera.
a maldição da claridade mais brilhante
que mil sóis e lhe cegou os olhos
deixou-lhe a clarividência para ver
a beleza que viaja no tempo,
a iluminação pura do êxtase admirado.
só a morte leva a luz retida no olhar
pousado num ombro alvo descoberto.
cego, tirésias, retém o sol
enquanto os deuses congeminam novos planos.

josé félix ( http://ateiadaaranha.blogspot.com/ )
2007.7.16

(Agora, inteiramente meu, com muito apreço!)

julho 05, 2007

Junto as lágrimas ao oceano - Dueto


foto de Geoffroy Demarquet

Noite sombria
em que o meu rosto escurece
e fico tristonho
levado por um sonho.

Induzem
os contornos da lua
uma azulada solidão
que me atraca o corpo
como barco
em ancoragem,
trazendo o amor
______acrisolado
_e dando-me a alforria
_________da fidelidade
___________por te servir,
__________________Amor.
__________________Caravelas
_______________________porém
________________________navegam
_____________________unindo ao oceano
______________________cada lágrima minha
______________________________que eu solto
_________________________com tendência atávica
______________________________e excesso de paixão
_______~_____________________sentimentos desmedidos
_____ _____________________________________intensos
_____________________________________________quentes
__________que me perfazem
________e invadem-te os sentidos.

- Vera Carvalho e Jorge Carvalho -

junho 25, 2007

Partida


foto de Duarte Monteiro

há uma visão repetida
retida
na concavidade da minha retina
e há lágrimas que se juntam
à neblina da manhã

há o pulsar trémulo nos dedos da mão
e um bramido contido
que acelera a baqueta do coração

há a verdade gélida
nua
acinética
e a tua partida entornada no vinho
que verte de minha boca
ainda
céptica

há um ímpeto amargo
e um rasgo incisivo na maciez da seda
que me perfura o ouvido
e me faz cair
pena

fica a vontade
de partir
contigo

-----V.C.-----

Agradeço ao Zequinha e a todos do http://lusoprosecontras.blogspot.com/ o prémio. O vosso foi bem merecido pela franqueza, pela originalidade, pelo humorismo, pela sensualidade e por muito mais...

junho 18, 2007

Nasci numa alma mulher - Dueto


foto de Paulo César

Nasci numa alma mulher, dada ao gene de homem
Sou negra por fora, branca por dentro...
Detesto-me mais que os outros possam detestar
Todos me apontam o dedo, sequer me dão alento...

_______Revejo-me todos os dias no reflexo do espelho.
_______Comprimo as pálpebras na esperança
_______de apagar a imagem que vejo
_______e acordar no corpo que desejo

Querer me cortar, insiste a mágoa que então se mete,

minha renda é apoucada, me é sonho, quando der.
Tenho amores, pais, irmãos e ao todo somos sete.

_______Não é a robustez do meu corpo que me oprime
_______a sensibilidade.
_______Não é a minha opção de vida que me condena
_______a felicidade.
_______É a sociedade!

Se desconjura-me o teu olhar, que de longe mira,
saiba que sou mulher, magoada, mas verdadeira...

_______Triste fado
_______Não ser amada
_______Pelo corpo de homem que trago vestida.



Bruno Taborda / Vera Carvalho
(http://writer-words.blogspot.com/)

junho 05, 2007

Delicadamente broto...


foto de Helena Margarida de Sousa

absorvo cada sussurro teu
com palpitações trémulas
que me aproximam à boca
_____o coração

com a suavidade dos lábios
teço linhas
____entrelaçadas
em beijos

doces sobejos
fogem da razão
e espalham na alvorada
a brandura da tua mão

__delícias
doces
__delícias

librinam a flor
que brota em meu seio
e se abre ao alcance de um veio
onde possa enraizar

___o amor

-----V.C. -----

maio 31, 2007

Falta-me a essência


foto de X. Maya

não vês que sou apenas pó
por entre o cerco dos teus dedos
que devagarinho vou caindo
na areia que te cobre
__________e desnuda os pés

não vês que sou apenas gota
num oceano imenso
de encanto
e que vou evaporando
junto-me ao ar que exalas

não vês que sou apenas tinta
branca
nessa paleta que guardas
incompleta
e vou pingando
______pingando
sobre as tuas mãos

______não vês que me faltas

tu

para me conceberes colina
em corpo de mulher

mar imenso
de emoções transbordante
que explode de sentimento
____________rubro por ti

não vês que és a essência

_____________de mim

----V.C.-----

maio 22, 2007

Enquanto houver tempo...


Foto de Ana Rita Rodrigues

se um risco apagasse
a saudade de ti

se uma palavra bastasse
para te ter aqui

se num verso abraçasse
parte de ti

rimas seriam beijos trincados
sussurros largados
corpos molhados

ecos multiplicados
pelo vento
sairiam daqui
de dentro

amar-te-ei enquanto houver tempo…

-----V.C.-----

maio 20, 2007

Divulgação


Foto de Inês Sacadura

Caros amigos, leitores e visitantes,
aproveito hoje para divulgar o lançamento da 1ª Antologia poética da lista "Amante das Leituras" que irá decorrer, no dia 2 de Junho, na Sede da Junta de Freguesia, em S. Mamede Infesta -Matosinhos, pelas 15:30h...
Na Antologia participam 18 autores, com poesia, sendo eles:

- Alexandra Oliveira
- Alice Campos
- Ana Maria Costa
- Bernardete Costa
- Carlos Luanda
- Eliana Mora ( Brasil)
- Filipa Rodrigues
- Francisco Coimbra
- Jorge Vicente
- José Félix
- José Gil
- Luís Monteiro
- Manuel Bento
- Mónica Correia
- Rodrigo e Sousa
- Teresa Gonçalves
- Vera Carvalho
- Xavier Zarco.

Durante o evento poder-se-á assistir à declamação de poemas dos diversos autores, a uma pequena actuação musical e, por fim, a um bailado.A responsabilidade da edição do livro está a cargo da Ediumeditores, e é a concretização do sonho da Ana Maria Costa.


Estão todos convidados e intimados a comparecer!Consultar o mapa e procurar a R. Silva Brinco em:http://jfinfestaroteiro.no.sapo.pt/


A entrada é livre!
  • Podem saber mais acerca desta lista de poesia através do blog http://blogdalista.blogspot.com/

  • Referencio também a apresentação do livro "Murmúrios ventos" do estimado poeta

Jorge Casimiro, dia 25 de Maio nas Caldas da Rainha.


maio 08, 2007

Esqueleto Salino - Dueto


foto de Bruno Moniz (praia da Conceição - ilha do Faial - Açores)

no esqueleto salino das ondas
escavo abraços fósseis de náufragos
e uma luz ausente e triste
escorre-me p'las paredes do rosto
desfolhando pétalas da tua sombra

em ti sou sombra desnuda
encharcada no azul da íris dos teus olhos
mar de afagos e segredos
derramas na areia teu corpo escorrido, vazio
da mão que fora tua outrora

pudesse eu viver a quatro mãos
esta memória que de mim se apaga
(a cada pôr-do-sol nas ameias de espuma)
e tranquilamente redesenharia o teu nome
na areia húmida
do vento norte

sinto esvair-me das entranhas do teu corpo
com o fluído quente que o mar esmorece
salgadamente despojada na inquietude das ondas
delírio agitado de mulher
desejo que te afundes em mim

- Jorge Casimiro e Vera Carvalho -

abril 30, 2007

Será tua esta praia ?


foto de José Luís Mendes

Serão tuas as lágrimas
que o mar expulsa e me devolve ao rosto?

Será teu o lamento do marejar das ondas
que me cinge os lábios ao sabor salgado?

Será teu o calor dos penedos macios
que me repousam o corpo?

Será tua a memória espelhada na bruma
que me turva e me comove a alma?

Serás tu que roubas meu nome d’areia
e me unes a ti (terra ao mar )?
Ou

Serás tu o barco, o enigma, o corsário
que me lança ao mar e se afunda em mim?

-----V.C.-----

abril 24, 2007

Hoje acordei no verde musgo dos teus olhos


foto de Insomnia

Hoje acordei no verde musgo dos teus olhos

estendida sobre brancas flores
acariciada pelo vento que adormece as ervas

beijo-te os lábios de morango silvestre
e deixo que o suco ácido adoce em teu corpo
bebo-te como água que rebenta da nascente
fresca, intensa, límpida
e deixo que as mãos espalhem em meu rosto,
gotas de carícias, de beijos orvalhados

estendida sobre brancas flores
acariciada pelo vento que adormece as ervas

revolvo-me nas encostas do teu ser
e caio perdida de braços abertos,
de sorriso aceso ao sol que te contorna os lábios
e ao vento somos pétalas,
leves sombras que se unem num abraço
e difundem o perfume das margaridas

-----V.C.-----

abril 19, 2007

Os Blogs que me fazem pensar


A querida Ângela do http://esbocodepalavras.blogspot.com/ premiou-me como sendo um dos blogs que a fazem pensar. Humildemente aceito este prémio e agradeço-lhe.
Agora cabe-me a mim ligar-me à corrente e premiar os cinco blogs que me fazem pensar. Confesso que não foi tarefa fácil porque tenho muitos que me fazem pensar e os que tenho em consideração sabem isso.
E os premiados foram:

- porque me enfeitiça com a magia das suas palavras.

- porque aborda temas sociais de uma forma crítica, construtiva e prazenteira.

- porque é " várias mulheres sem nomes para todas e nunca sei qual delas sou agora", porque em suas veias corre a poesia e porque considero minha "madrinha na escrita".

-porque é exemplo de incentivo, coragem, boa - vontade, para além de poesia de qualidade, e claro, pelo João ser um amigo estimado.

- porque abraça a arte na escrita e explode em sentimento.

E assim continuaria por mais algum tempo, mas devo ficar por aqui. Os cinco premiados poderão seguir a corrente e colar no vosso blog o selo do prémio.
Um abraço a todos que me leêm.

abril 11, 2007

Quando és Transcendente


foto de Isabel Gomes da Silva

Há dias em que és chuva e
me deixas gotas no rosto.
Há outros em que és vento,
e passas suave
deixando o gosto
da saudade.
E há aqueles dias,
em que és sol
e vens pela manhã
brando e gracioso.
E ficas.
Eu demoro-me,
na tua arrojada chama,
sabendo que o tempo
te leva aos poucos,
vais partindo,
sucumbindo,
mas aos meus olhos
és deslumbrante
eterno amante.
Tu vais.
Eu permaneço
pela noite,
vagueando à luz da lua
à espera que amanheça.


-----V.C.-----

abril 03, 2007

Entrega


Foto de Mariah

Despe-me com o teu sopro
Em folhas de prata
Ao olhar túrbido de lágrimas
Que me capta

Atira-me ao vento
Em sinal de revolta
À liberdade aparente
Que me solta

Deixa-me cair
Em teus braços famintos
A aridez da pele
Te mostra os instintos

Prende-me ao teu corpo
Com correntes de espinhos
O sangue que derramo
É da cor do que sinto

-----V.C.-----

março 29, 2007

Sentes como te sinto num poema?


foto de Carla Salgueiro


Percorre-me o suor do teu corpo
nas mãos ansiosas d’escrita
e esborratam esta folha limpa
em palavras d’amor
que escorrem da minha boca.
Como te sinto os beijos!
Desejos
provocam-me as palavras,
obscenas cenas
se espalham num grito
que me arfa o peito.
Desenhadas em movimentos rangidos
por vontade voraz de te sentir os gemidos,
a tinta da cor do que sinto
pinga das pétalas que permanecem
esquecidas nas minhas mãos
que agora pinto.

-----V.C.-----

março 26, 2007

No chão cavo o meu suspiro


foto de Carla Salgueiro


Cerro os olhos à procura de um vazio,
de uma cova onde esteja só, onde os sentidos são proibidos.

Sou surda à voz do coração, severa ao meu lamento
mas inabalável à tentação.

Ah, mas quando a razão vence o coração?!

Mesmo de olhos cerrados, de coração aprisionado
desfruto-te o cheiro,
sinto-te a rigidez dos dedos,
procuro-te o sussurro,
e caio das tuas mãos
como lençol de seda,

no chão,

cavo o meu suspiro, maldito sentido!

Porque és presença quando tudo havia perdido?!

-----V.C.-----

março 16, 2007

Perfeita Sintonia




foto de Maria Flores


Nas noites em que sou corpo perdido
abrigo-me em telhado de sombras
que teimam fortalecer a minha dor
por entre o bulício entranham-se raios de lua
que revelam a minha cor - nua

aos olhos, as estrelas são culpadas
aos dedos, os devaneios são pedidos
ao coração, o poema rima em perfeita sintonia
entre os acordes da noite e a rima dos versos
ardor, amor, hoje soam-me a - perversos

sonhando choro lágrimas em tons de azul
que inventam um céu
meu - onde a noite é rabisco de vogais.

-----V.C.-----

março 12, 2007

Memória em mim


foto de autor desconhecido

Ao lembrares-te de mim

que eu seja gaivota branca rasgando o céu celeste
e planando sobre o embalar das ondas

que eu seja céu pintado de tons de sol e de paixão
abraçando o fim do dia com uma leve saudade

que eu seja cheiro doce a jasmim
percorrendo os lugares onde ainda sou lembrança

que eu seja criança pintalgada de alegria
rasgando o verde dos campos e dançando com as papoilas

ao lembrares-te de mim, lança pétalas ao vento
e de braços abertos espera que beijem teu rosto

que a memória seja a última a morrer
em mim


-----V.C.-----

março 07, 2007

Salpico de brisa


foto de Luís Pinto

Nos dias em que acompanho a chuva
sigo as suas gotas revestida de uma limpidez
que transparece o escuro que em mim guardo

como pêndulo expulso da mão materna
sinto a dor da queda quebrar-me ao meio
e derramo lágrimas que se juntam ao mar

salgadas memórias que ancoram n’areia

ondulo para lá da praia
à espera que o vento me revolte e de volta me una
em salpico de brisa que te bate no rosto.

-----V.C.-----

março 02, 2007

Dueto - Querer mais que Vontade -



É olhando a linha que nos separa
para lá do mar e da cor
que a vontade sedenta morde o teu vulto
nas saudades sugo o sémen quente
sou víbora airada, alucinada pelo teu odor
nas árvores largo a pele
trespasso, invado e domino-te os contornos
desço movimentos às folhas do sexo
do teu colo avançam os dedos fingindo delicadeza
flores, túlipas vermelhas doam o orvalho ao vento
lentos e atilados acautelam-me os sentidos
perdido, algures, entro no ventre das dunas
serás presa dócil, submissa desfrutando da iguaria
reboliças línguas viajam areias
acorrentado o teu corpo oscila
entre as ondas e o calor
em júbilo do ardor da mordida acérrima
bocados de gritos vêm.
Num sopro gemido contestas a tua oportunidade
o tempo ergue-te nos braços.
Falhada, proibida.
Perdido o paraíso chora no cume do céu.
Sou víbora airada, sem vénia, sem permissão, sem restrição.
Quero amar!

Vera Carvalho e Ana Mª Costa( http://ana-maria-costa.blogspot.com/ )

fevereiro 22, 2007

Foi-se embora o dia ...


foto de autor desconhecido
Os dias são escuros, as noites cruéis
chovem lágrimas de luto
que encharcam os meus olhos enterrados no chão
e me maltratam a alma com a sádica recordação

Porque foi embora o dia de sorriso vadio, as horas indolentes?
Sozinho, magoado, sem despedida

Vence a dor, a revolta,
a minha fraqueza lampeja em luz negra
que aferra com estigmas adornados de saudade
Condeno a mão que o levou e o doou à liberdade

Porque foi embora o dia de sorriso vadio?


-----V.C.-----

fevereiro 14, 2007

Dia de S. Valentim



E espero pela noite que me aquece

minh’alma indigente implora
o amor brando fluente em arco-íris de sonhos
Traz o vento até mim
inunda-me na essência das pétalas

Ascende o calor da terra
absorve o que em mim há de desejo

Aclama o mar
une-te a mim nas ondas deste corpo

Envolve-me em ti
despe-me em pedaços

Acorrenta-te ao amor
submete-me à sua servidão


-----V.C.-----

fevereiro 07, 2007

Fala-me de ti



foto de autor desconhecido
Hoje não adormeças
deixa-me sentar diante de ti,
olhar-te o rosto como quem figura uma admirável película,
tactear-te a pele em descompasso
e ouvir-te a respiração como uma sussurrada melodia.


Hoje sou suspiro, sou leito, sou baía.


Fala-me de ti.


Fala-me de ti como quem implora uma súplica
como quem grita uma mudança
como quem chora uma dor
como quem lastima uma mágoa


Fala-me de ti como quem canta o dia
como quem rejubila o vento
como quem abraça o tempo
como quem sacia a paixão


Hoje fala-me de ti
e ficarei perdida na janela do teu mundo.
-----V.C.-----

janeiro 31, 2007

Querer mais que Vontade
























foto de Victor Melo
É olhando a linha que nos separa
que a vontade sedenta morde o teu vulto
sou víbora airada, alucinada pelo teu odor
trespasso, invado e domino-te os contornos
do teu colo avançam os dedos fingindo delicadeza
lentos e atilados acautelam-me os sentidos
serás presa dócil, submissa desfrutando da iguaria
acorrentado o teu corpo oscila
em júbilo do ardor da mordida acérrima
num sopro gemido contestas a tua oportunidade
falhada, proibida.
Sou víbora airada, sem vénia, sem permissão, sem restrição.
-----V.C.-----

janeiro 26, 2007

Não quero asas para voar!

















Uma noite sonhei
que poderia ganhar asas e voar,
subir para lá das nuvens
e romper o céu de tanta volta dar!

Sôfrega de vontade e despida de embaraço
Deixei-me levar, subi, subi, subi…
…até um circulo vago, de uma vastidão incomum,
Sentia frio, deixei-me pousar.
Não conseguia caminhar,o solo de algodão movia-se lentamente e arrastava a leveza do meu corpo.
O vazio era perfeito, sereno, puro.
A atmosfera inerte assombrava-me o querer!
Aos poucos ia rasgando a névoa, mas as fendas só mostravam o que ficava para trás!
Um círculo despejado de solidão!
O silêncio e o frio secaram a vontade e aprisionaram a liberdade.
"De que valeu subir tão alto se tudo é deserto e triste?"
Rompi o solo de algodão e deixei-me cair rodopiando na desilusão.
"Não quero o céu, as nuvens, as asas!
Quero acordar, sentir o sol da manhã que me aquece através da janela,
preguiçosamente levantar e sentir o duro chão,
arrastar o corpo pela casa e enfrentar mais um dia,
mesmo que não seja um sonho."

-----V.C.-----

janeiro 18, 2007

Bagageiro da paixão
















De que fado vieste tu?
Serias folha de árvore caída no chão?
Gota de água em terreno árido?
Ou sopro de vento numa tempestade?

És desvario, alucinação, angústia da alma.
És bagageiro da paixão, inquietude da calma.

Trazes os olhos da perdição, a boca do pecado,
envolves em tentação o meu corpo acorbadado.

Ilusionista da vontade, acorrentas-me o sentido,
crias um ardor desmedido num sonho fingido.

Abominada chegada, encantada presença,
a tua partida apressada é minha sentença.

-----V.C.-----

janeiro 08, 2007

Abraça-me




Hoje preciso esquecer o mundo lá fora
Deixar que o tempo passe sem saber como
Juntar todos os meus pensamentos num só e sentir-te o perfume
Abraça-me e tira-me deste mundo
Leva-me para um lugar vazio e deixemo-nos ficar
Só preciso dos teus lábios para me saciar
Dos teus braços para me adormecer
Dos teus olhos para escrever a nossa história
Por ali seremos vida, verso ou canção
Abraça-me e leva-me para um lugar vazio…


-----V.C.-----

janeiro 02, 2007

Saudade


Penso no mar e nos segredos enterrados na areia.
Peço às ondas para os levarem para bem fundo onde ninguém os encontre, mas onde o seu brado me chame.
Relembro o pôr-do-sol, a brisa a invadir-me os sentidos e caminho na areia marcada pelas memórias.
Desejo esvoaçar como as gaivotas, dar voltas e voltas e pairar sobre o meu mar.
Sinto uma dor que me aperta e me esmaga…
É a dor do tempo que passa e não volta atrás,
É a dor da saudade.


-----V.C.-----