10.28.2009

Síncope


Foto de Inês

Sinto-me só
Quando bocejo as palavras
Contra as mãos
E elas se esvaecem num suspiro
Sem sombra,
Sem sequer
Aquele reflexo de arrepio
Que nos toma sem qualquer explicação
Expressa negação
Toma-me de soro em veio vazio
Sinto-me só
Quando sufoco as palavras
Assim
Em trejeito de morte.

Vera Carvalho

9.22.2009

Antologia Poética Amante das Leituras 2009

8.24.2009

Eco



foto de Keitology

Na lamúria
do vento brando à beira-mar
a noite distrai-se
triunfante pelas desoras da lua

revolta-se em mim
impiedoso
o mar
enquanto revolve salgado
a tua ausência

e um vazio

nada quente ou frio
toma-me de pouso
num silêncio suspirado
a teu lado

Vera Carvalho

7.15.2009

Errante


foto de Alexandre Delmar
Se eu te estendesse a mão
talvez me aludisses
sem dó, nem piedade,
em semblante altivo, senhor
excelência de si
para as profundezas dos teus olhos

talvez
respirasse de ti o odor bélico,
que corrompe a salubridade dessas lágrimas
em esfaimada primazia
dos punhos veemente cerrados

albatroz
talvez soubesse de ti
porque é que as ondas se revoltam
e voltam de novo às origens
imprudentes, quebráveis

preceito sagaz
mantém o horizonte aprisionado
e nele
na réstia de luz cálida
estendo as minhas mãos

talvez um dia
perceba a origem de tudo

Vera Carvalho

6.30.2009

Vontade

foto de keitology

Na boca
na saliva sedenta
de um trago
meu beijo morre


No copo
nas bocas secas
esvaem-se vontades linfáticas

Vera Carvalho

5.08.2009

Fluvial


Foto de Alexandre Delmar

Correria em ti
sem norte ou sul
sem resto ou manifesto
dissertivo

Correria em ti
sem idiomas, sem páginas
e divagações acertivas

Fluiría apenas
sem pena
da solidez dos dias


Vera Carvalho

1.26.2009

Ponto de partida


foto de Alexandre Kharlamov

Com os pés descalços
piso o risco desfilado a preceito
suave percussão não emudece o vento
que traz o passado comprometido às ondas do mar

como balbuciam loucas, ainda no cio
rebentando cá dentro
são lágrimas repartidas num rosto
ainda quente

talvez esta seja a hora da partida…

se ao menos fosse rocha e o mar batesse em mim
ficaria ali
tão sólida, tão majestosa
sem resguardo, sem proa

talvez esta seja a hora de transpor o risco…

são gaivotas lá no alto
singelas, indecifráveis
pontos de partida
e eu aqui carne, espírito e lamento

se ao menos fosse lua girava em torno de ti


Vera Carvalho

9.02.2008

Diz-me...


foto de Paulo Madeira

Diz-me…
como da chuva que se cola ao calor da pele
e adivinha na noite a frescura da alvorada

Diz-me…
no bulício do ar que se forma em nós
enquanto a lua guarda segredo


Diz-me com lânguidos sussurros
que a noite me espera
que o mar atraca nos suspiros largados na areia
e tu és água

e somos infusão

girando no gorgolejo das ondas

Diz-me
se é este vento que funde em gotas de brisa
o teu cheiro
e me solta este vício lúbrico em maré vermelha

Diz-me
que a noite me espera…

Vera Carvalho

8.08.2008

Nas Águas do Verso 100 Autores 100 Poemas


Um agradecimento em especial ao João Filipe Ferreira e ao Pedro Lopes pela oportunidade concedida para fazer parte deste fantástico rol de escritores.

A quem faz pão ou poema
só se muda o jeito à mão
e não o tema.

Atingira um silêncio tão de espanto
que era todo universo à sua volta
um seduzido canto.

E posto que viver me é excelente
cada vez gosto mais de menos gente.

Não sei quem manda na vida
mas a quem for eu me entrego
e o que queira me decida.

Pé firme leve dança
que o saber seja adulto
mas o brincar de criança.


in Uns Poemas de Agostinho, de Agostinho da Silva; edições Ulmeiro, 2ª ed. Maio de 1990.

6.26.2008

A razão não foge ao coração


foto de Ruben Andrade
Hoje eu sei
o porquê do prazer de um raio de sol que
bate no rosto depois do aperto incontido da chuva
Sei das palavras loucas que o vento leva
para lá
das orelhas moucas
Sei o porquê
do primor das cores espalhadas nos seres e o facto
de tu já o saberes
Hoje eu sinto
a aspereza da areia que foge das mãos pela
maciez da água e percebo
porque entre terra e mar
não sobrevive mágoa
Sinto o calor arder-me na pele e o suor lamber-me a ânsia
e percebo
porque abaixo de beijos e lágrimas
há sempre um chão em redor
Hoje eu não sei
olhar não sei tocar
e não sei de tantas coisas
Mas sei o porquê do que sinto
e sei que a razão
não foge ao coração

Vera Carvalho
(para a razão do meu coração)

5.26.2008

Convite para o lançamento da Antologia Amantedasleituras 2008


A edium tem o prazer de anunciar a edição da Antologia Poética 2008, Amante das Leituras, para o próximo dia 31 de Maio.Este ano, a Antologia contará com as participações dos seguintes autores:Alexandra Oliveira, Ana Maria Costa, Carlos Alberto Roldán (Argentina), Carlos Luanda, Denilson Neves (Brasil), Geraldes de Carvalho, Jorge Vicente, José-Augusto de Carvalho, José Dias Egipto, José Gil, Manuel C. Amor, Maria João Oliveira, Maria Rita Romão, Mónica Correia, Paulo Themudo, Samuel Gomes, Túlio Henrique Pereira (Brasil) e Vera Carvalho.

4.17.2008

Con(m )tacto


foto de DDiArte

É da pele,
a negrura da lama que encharca a boca
quando o silêncio cai.

É da pele,
a rigidez das pedras que edificam os punhos
em balastro à guerra.

A aspereza da terra que seca as lágrimas
outrora mergulhadas na corrente do rio,

é da pele,

o vermelho estendido no chão,
manto pérfido com suores da razão.

É da pele,
o cheiro promíscuo de verdades,
em deleite, traídas.

É da pele,
as fendas que acovilham os corpos despidos.

A decrepidez flácida de um universo rendido,

é da pele.

Vera Carvalho

3.31.2008

Espelho da alma



Deixa-me olhar-te nos olhos,
correr no verde que anuncia a primavera
e desvendar os mistérios dessa janela.
Abre esse mundo que a íris silencia
com astúcia e sensualidade
e dá-me a trincar o fruto
que me rouba à realidade.

Deixa-me chegar-te a mim,
espreitar-te pelos poros
a dimensão da alma
e então, afundar-me nela
vaiada pelo raciocínio e,
aclamada pelo descortino
julga-me,
rasga-me em pedaços
com que depois cortinas a janela.

Cada vez que o vento passe por ela
deixa-me segredar-te ao ouvido
quantas lágrimas compõem a tua ausência,
quais as palavras que os lábios encerram
e como a falta de amor provoca demência.
Deixa-me percorrer-te a olhar-te nos olhos
sem que a claridade te cegue a vontade.

Vera Carvalho

Em agradecimento ao Xavier Zarco pela referência em Eu, X.Z.

3.11.2008

Sede


Foto de Sara Sá

A língua atrai e retrai-se
aos conjuros da sede.

Ah!!! Pecado foi beber-te
e não caberes dentro de mim...

Vera Carvalho

2.28.2008

Eternidade


foto de autor desconhecido
Ah, se eu pudesse
Espraiar as minhas memórias com a leveza da brisa
E render-me ao sorriso que elas me trazem
Resumia os dias àquilo que te caracteriza.

Entregava-me ao sol e ao mar
Baloiçada pelos segredos que as ondas guardam
E o rubor que emergia das minhas faces
Denunciavam-te à linha que os olhos talham.

Ah, se eu pudesse
Navegar junto a ti numa canoa
Flutuar desprendida dos pés que me agarram à vida
Morrer seria até, coisa boa.

Despia-me da fisionomia
Enredada aos trapos da saudade
E aconchegava-me ao vermelho da carne
Até à eternidade.


Vera Carvalho

2.12.2008

Insânia


foto de Keitology

Talvez eu não possa amar-te

talvez a insanidade dos meus sentidos revogue
a serenidade de um poema ladeado de lírios e organzas
e me acerba esta vontade de te rasgar a pele
e colar-me a ti

talvez a sede de mulher sugue
as palavras doces da tua boca
e me atice esta vontade de te trincar os lábios
e beber-te o sangue

talvez o despropósito do meu ser arranque
as raízes dos teus braços
e me enlouqueça esta vontade de te roubar ao mundo
e fundir-te em mim

talvez eu não possa amar-te
com a lógica da razão

amarra-me então o corpo
mas liberta-me deste coração

para que eu não possa
amar-te

Vera Carvalho

1.21.2008

Vou aonde vão as folhas


foto de Alain Marc
O vento larga a candura de um sopro
e as tardes vadias varrem-se
nas conversas desgastadas
pela sombra do sol.

Oiço as folhas ao meu redor segredarem
a sua partida e acalma-me saber
que seguirei o mesmo caminho.

As folhas vão onde vai a poeira
e eu esmaguei-te vezes sem conta.

Sei que a minha garganta sentirá o vão dos rios secos,
os olhos a acidez das chuvas,
os pés os espinhos das rosas
mas o meu desígnio voa com o vento.

Inútil é arrancar as penas e
espalhá-las como um pranto
à espera que a chuva lave as
vísceras do arrependimento.

Vera Carvalho

1.16.2008

Blogue das Artes


O Blogue das Artes fundado por Tiago Nené e Duarte Temtem é um ponto de encontro entre artes e artistas.
Entre a minha poesia que agora fará parte desse encontro, há muitos bons motivos para visitarem o Blogue das Artes .





Agradeço ao João Filipe Ferreira - Last Good Bad Idea - esta distinção.
Obrigada meu querido, fico feliz por saber disso :D.

1.08.2008

Apunhalo meu coração



foto de Janosch Simon

Sinto a geometria da lâmina
percorrer-me as fronteiras.
Esticam-se os ossos,
esmaga-se a carne e sufoca-se a voz.
Não queria empunhar facas, antes
buquês de rosas.
Mas já não se colhem flores,
os ovários não produzem cores, perfumes,
sorrisos, toques
e as palavras estéreis que pairavam no ar,
não as consigo inventar.
Caem, agora, do céu,
frios
no silêncio que rui
em gumes,
morfemas cuspidos que desfiam
sonhos e semeiam lágrimas.
Apunha-lo, antes, meu coração
e deixo o sangue afogar este terreno árido
para que possam brotar de novo
as rosas.

Vera Carvalho

12.23.2007

Que nasça um fillho de Deus todos os dias


foto de Djelsa
Hoje caminho pelas ruas
Iluminada pelos sorrisos fagueiros
que me dão sem exigir nada em troca.

Juntam-se-lhe as cores do refrigerante
metalicamente estampadas nos sacos pêndulos
que se atropelam e que elegantemente
espelham nas montras das lojas.

O olhar brilha-me,
as retinas reflectem as emanações de luzes,
mas a emoção não cresce,
continua presa nas árvores coníferas que propositadamente
cristalizam em magia cósmica.

Num ápice de quimera, chovem as memórias
que me quebram os joelhos e me prostram numa sala
aquecida pelas gargalhadas e ampliada pelos abraços.
O cheiro doce das fatias douradas e
o som aveludado dos coros infantis
incendeiam-me o corpo e alforriam-me a alma.

Sou, de novo, menina com o coração a bater palmas
ao prenúncio das doze badaladas.
Quero apenas fechar os olhos, pensar nas minhas boas acções e
que alguém me traga os desejos escondidos num saco…
Quero a realidade de novo enfeitada com estrelas e laços,
acreditar que tudo se perdoa com o sopro de um beijo
e que nasça um filho de Deus todos os dias.

Vera Carvalho
in Antologia de Natal Edium 2007 (http://ediumeditores.blogspot.com/)