janeiro 19, 2011

Fragmento


No limite dos meus dedos ferve
este querer
o querer-te aqui tanto
de braços estendidos às horas que foram

abandona-me a madrugada
dia após dia
e o que sobra é teu

a mim
basta-me o beijo que demora o amanhã
se desfaz aroma e se cola ao corpo

a mim, a este querer basta
seres pedaço da minha pele


Vera Carvalho

novembro 09, 2010

Tempo

 
Foto de autor desconhecido
Não sei guardar o tempo
tenho-o ali pendurado no armário
a escorrer-me das mãos, da vista, de tudo
preto e branco
branco no preto, nem sei bem

Parece-me alongar-se a cada dia
mas não, engano propositado
desfaz-se e devolve-me memórias como presente
safado o tempo
este tempo que me foge e me inventa
para depois me perder



Vera Carvalho

outubro 19, 2010

Maldito vício

Erra-se uma vez, resvala-se na poeira e sacode-se
o engano
some-me a falta de engenho em inventar caminhos
em contornar destinos

longa, compassada
           a vida
fino fumo que se dissipa

bastava inalar-te e revestir-te com a boca
mas pareces-me insulto
afrontas-me com sonhos
                           versos tortos diria eu
maldito vicio, este
viver-te intensamente
enquanto te dissipas.


Vera Carvalho

setembro 30, 2010

Cinco arrobas de amor


Diante deste lago, mergulho em mim
como se de ti
entornasse
e se o percurso que a água toma é inverso ao teu
então eu seco

Por vezes existem ondas no céu
que afogam gaivotas
assim me despenho e me fundo
no chão que me estendes,
na sombra que atravessas


Demasia-me a liberdade do dia
no vazio de ti
a espessura do tempo sufoca-me
eu não grito
mato-me nas palavras mudas


E se do mundo eu te inventasse
carregava-te na barriga e tu carregavas-me a mim
cada vez mais pequenos
até o mundo se reduzir
a coisa menor que nós


Será contudo sonho, razão
loucura que avisa e vem
um esforço que me aninha
na prepotência de te ter
em cinco arrobas de amor


Vera Carvalho

setembro 06, 2010

Vozes anoitecidas


Tem dias que as folhas me falam de ti
brancas, frias, sussurram-me
como o vento da noite que nos adormece
mas eu preferi-as vermelhas, quentes

vozes anoitecidas, empurradas pelo ontem
como se ainda fosse cedo
emagrecem-me de ti
                             tal a distância


ainda assim ouço-as
na esperança que se façam gestos, veias
                                                     carne
e me olhem sepultadas no silêncio
mas vivas no tempo



Vera Carvalho

agosto 27, 2010


As lágrimas engolem-se bem

e o travo amargo do ontem

dilui a cada amanhecer

quando o amanhã nos abre a porta.



Vera Carvalho

agosto 18, 2010

Utopia


Quisera escrever-te em grãos de areia
em incansáveis rodopios
como se do pó fizesse sombra
e inventar - te aqui
                      todos os dias

Quisera tornar-te maior que a penumbra
fulgor entre vinho e lua
verter a noite e bebê-la
com o sorriso
           nos olhos

Quisera somente estender-te
para lá do mar
                entre marés
em consistente gravitação nossa

mas o que há em mim é loucura,
talvez a última que me mata
e me importuna

porque estás escrito num tecido que sangra
a cada traço que contorno
e a minha subtileza é inútil,
infecunda
              mente
inútil


Vera Carvalho

julho 16, 2010

Expressão


Bastava-me a vontade
e eu dançava
se os lírios me acordassem os pés
e as palavras, as sussurrasses em jeito de mote
traz-me as manhãs rendidas à terra molhada
e a chama acesa em teus braços
pega-me em voltas devotas
ao sentir do chão, ao sugar do corpo

e a dança nasce
pálida, desperta, inteira.


Vera Carvalho

junho 18, 2010

Desilusão

 foto de X.Maya
Meu corpo alinha
à espera da lâmina que o traça
e aos pedaços no chão
não é gente
é alma em fios de ilusão
agastados por quem ali passa


Vera Carvalho


abril 28, 2010

foto de Sara Kross 
Morreria uma, duas, três
as vezes que esse sorriso me levasse
dividida entre a boca e o verso
(emudeço)

Veio da alma, rasgo
em meu peito
o universo como se de mim fugisse


Fosse a morte o renascer dos teus lábios
a cada raiar meu
e a madrugada beberia o dia


Morreria nessa doença tola de ter
e querer-te mais
em doses exacerbadas de teu beijo.


Vera Carvalho

março 23, 2010

Evasão

Foto de Miguel Graça
Todos os nomes cabem
na minha mão
âmago!
o teu dispersa
em tempestade, turbilhão
um gemido aqui

(dentro)
uma loucura dissimulada

tempo!

escorregadio o destilar dos poros
e essa ânsia madura de ter
arde!


 
Vera Carvalho

março 09, 2010

Quase-amor

foto de Alberto Monteiro


Fracos meus punhos
de um quase – amor alvo, combalido,
feixe ténue de luz
meus olhos despidos, moribundos, sumidos
tão resumidos esses encontros
descarnados à raiz, desoras
fartam-se em manto e o meu vermelho
desfaz-se agora em pranto
ordinário desafogo que some e me consome
por entre margens de um rio
corre moroso, ascendente à minha voragem
só eu sigo soturna, esta viagem


Vera Carvalho

fevereiro 11, 2010

Ó!



foto de Catarina

Há dias em que me sinto leve só
enrolada em mim, em voltas e revoltas
num ritmo enlevado em dó
sem dilemas, apenas
pés subjugam o pó
das cinzas
das sombras
dos morfemas que agarro em nó.
Ó! ...
Há dias em que me sinto leve só.

Vera Carvalho

janeiro 06, 2010

Encontro


foto de Mariah

Vieste ameno como as manhãs de domingo
que por ali ficam à janela
a olhar para mim
num silêncio inconsciente.
Carregavas nos braços flores
e no rosto um halo de sonhos.

Perdoa-me se ainda dormia,
mesmo quando montanhas e vales
bocejavam o dia.

Mas há um tempo
que o vento nos impõe…
mesmo no sussurro
da suave aragem.

Vera Carvalho

outubro 28, 2009

Síncope


Foto de Inês

Sinto-me só
Quando bocejo as palavras
Contra as mãos
E elas se esvaecem num suspiro
Sem sombra,
Sem sequer
Aquele reflexo de arrepio
Que nos toma sem qualquer explicação
Expressa negação
Toma-me de soro em veio vazio
Sinto-me só
Quando sufoco as palavras
Assim
Em trejeito de morte.

Vera Carvalho

agosto 24, 2009

Eco



foto de Keitology

Na lamúria
do vento brando à beira-mar
a noite distrai-se
triunfante pelas desoras da lua

revolta-se em mim
impiedoso
o mar
enquanto revolve salgado
a tua ausência

e um vazio

nada quente ou frio
toma-me de pouso
num silêncio suspirado
a teu lado

Vera Carvalho

julho 15, 2009

Errante


                                                                                      foto de Alexandre Delmar
Se eu te estendesse a mão
talvez me aludisses
sem dó, nem piedade,
em semblante altivo, senhor
excelência de si
para as profundezas dos teus olhos

talvez
respirasse de ti o odor bélico,
que corrompe a salubridade dessas lágrimas
em esfaimada primazia
dos punhos veemente cerrados

albatroz
talvez soubesse de ti
porque é que as ondas se revoltam
e voltam de novo às origens
imprudentes, quebráveis

preceito sagaz
mantém o horizonte aprisionado
e nele
na réstia de luz cálida
estendo as minhas mãos

talvez um dia
perceba a origem de tudo

Vera Carvalho

junho 30, 2009

Vontade


                                                                                                    foto de keitology

Na boca
na saliva sedenta
de um trago
meu beijo morre


No copo
nas bocas secas
esvaem-se vontades linfáticas

Vera Carvalho

maio 08, 2009

Fluvial


                                                                                         Foto de Alexandre Delmar

Correria em ti
sem norte ou sul
sem resto ou manifesto
dissertivo

Correria em ti
sem idiomas, sem páginas
e divagações acertivas

Fluiría apenas
sem pena
da solidez dos dias


Vera Carvalho